HISTÓRIA DA  PSIQUIATRIA NA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (1911-1961)

 

HISTORY OF PSYCHIATRY IN THE FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS (1911-1961)

 

José Lorenzato de Mendonça (1)

Ronaldo Simões Coelho (2)

Sebastião Gusmão (3)

 

 

(1) Professor do Departamento de Psiquiatria e Neurologia da Faculdade de Medicima da UFMG.

(2) Professor do Centro de Memória da Medicina da Faculdade de Medicina da UFMG.

(3) Professor do Departamento de Psiquiatria e Neurologia da Faculdade de Medicima da UFMG. Professor do Centro de Memória da Medicina da Faculdade de Medicina da UFMG.

Resumo

Relata-se a história da psiquiatria na Faculdade de Medicina de Minas Gerais, desde sua fundação em, 1911, até o ano de 1961. Faz-se uma breve biografia dos psiquiatras do corpo de docentes durante esse período e seus trabalhos científicos mais importantes são relacionados.

Palavras-chave: História da Psiquiatria; História da Psiquiatria no Brasil.

 

            A história da psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (FM-UFMG) coincide com a história da psiquiatria de Belo Horizonte nas primeiras décadas do século XX, pois os primeiros professores de psiquiatria da Faculdade participaram ativamente da introdução dessa especialidade médica e do assentamento das bases de seu ensino no Estado de Minas Gerais. Como o início da psiquiatria em Minas Gerais está ligado à história geral da especialidade,  resumimos a história da psiquiatria mundial.

            Segundo Alexander e Selesnick1 , desde a época das cavernas o homem se defronta com três grandes fontes de ansiedade: seu bem-estar físico, sua segurança social e seu lugar no universo. Assim, como a doença mental ataca a própria essência da natureza do homem, desde tempos imemoriais a psiquiatria desempenhou papel central na evolução da própria civilização. Naqueles tempos, como não havia distinção entre sofrimento mental e físico, também não havia entre medicina, magia e religião. A psiquiatria primitiva atribuía a influências malignas, advindas de outros seres humanos ou de seres sobre-humanos, as causas não evidentes de uma doença; tratava das primeiras pela magia ou feitiçaria e das últimas pelas práticas mágico-religiosas.

            Philippe Pinel (1745-1826), Esquirol (1771-1840), Morel (1809-1873) e Magnan (1835-1916) subtraíram a doença mental da mitologia e da religião, inserindo-a na medicina.

Com a publicação, em 1858, da Patologia Celular por Virchow e, no ano seguinte, de A Origem das Espécies por Darwin, teve início a moderna medicina, abrindo oportunidade para o surgimento da moderna psiquiatria. Suas bases foram assentadas durante a segunda metade do século XIX, pelo movimento classificatório-científico dos psiquiatras saxônicos: Griesinger (1817-1868), Kraepelin (1856-1926), Krestschmer (1888-1964) e Bleuler (1837-1939). No início do século XX a psiquiatria foi consolidada como ciência médica com as obras de Freud (1856-1939), Mayer (1866-1950) e Jaspers (1883-1969)1.

            Em 1852 foi inaugurado o Hospício Pedro II, que em 1887 passou a ser dirigido por Teixeira Brandão (1854-1921), o primeiro professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Em 1903 passou a ser dirigido por Juliano Moreira (1873-1933), na época professor de psiquiatria na Bahia. Estes dois grandes marcos da história da psiquiatria brasileira representaram no país duas grandes escolas de psiquiatria: a escola francesa de Morel através de Teixeira Brandão e a escola alemã de Kraepelin na figura de Juliano Moreira2.

            O primeiro psiquiatra brasileiro foi,  provavelmente, Antônio Gonçalves Gomide (1770-1835), um mineiro nascido na cidade de Piranga e que estudou no Seminário Diocesano de Mariana, diplomando-se em medicina pela Universidade de Edimburgo na Escócia2.

            Em Minas Gerais os alienados mentais, até fins do século passado, eram recolhidos às cadeias públicas, transferidos para o Rio de Janeiro ou mantidos em enfermarias psiquiátricas, em cidades como São João del Rei e Diamantina. Em 1900 a Lei Nº 290 reúne os estabelecimentos para cuidado dos alienados em Minas Gerais na Assistência de Alienados, sendo criada em Barbacena uma Colônia para internação destes enfermos.

            Em 1911 é criada em Belo Horizonte a Faculdade de Medicina de Minas Gerais. Em 1914, por indicação do professor Samuel Libânio,  foi eleito pela Congregação da Faculdade, o nome de Álvaro Ribeiro de Barros para a Cadeira de Clínica Neurológica e Psiquiátrica. Em virtude de exigência do Conselho Superior de Ensino, em 1918, ano em que foi diplomada a primeira turma, a cadeira foi desdobrada, optando o professor Álvaro Ribeiro de Barros pela Clínica Psiquiátrica.

            Em 1926, após aprovação em concurso, Hermelino Lopes Rodrigues tomou posse na Cadeira de Clínica Psiquiátrica, sucedendo a Álvaro Ribeiro de Barros, que falecera em 1922. Em  dezembro de 1949, época da federalização da Faculdade, o corpo docente tinha como catedrático Hermelino Lopes Rodrigues e como docentes-livres Galba Moss Velloso, Sílvio Ferreira Cunha, Francisco Sá Pires e Austregésilo Ribeiro de Mendonça.     

Segue-se breve relato da vida profissional e de trabalhos científicos dos professores da Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, nos primeiros cinqüenta anos de sua existência. Grande parte dessas informações foi extraída dos arquivos da Universidade Federal de Minas Gerais; as restantes têm suas fontes citadas no texto.

 

 

Álvaro Ribeiro de Barros

 

            Na análise de Pedro Salles3, Álvaro de Barros foi um dos mais ilustres membros de nossa medicina, ultrapassando sua projeção o âmbito puramente profissional para refletir-se nos domínios da cultura filosófica, do humanismo e da cultura literária. Homem de vasta inteligência, sólida cultura e extenso saber médico, que se dedicava com especial afeto à Neurologia, conforme prefácio de Caio Líbano ao livro de  Moretzsohn2 .

             Nasceu em 20 de dezembro de 1879, no distrito de São Gonçalo, município de Campos, no Estado do Rio de Janeiro. Doutorou-se em 1904 na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, sendo seus colegas de turma e seus amigos os  professores Borges da Costa (1880-1950) e Samuel Libânio (1881-1969), que muito influenciaram em sua vinda para Belo Horizonte. Desde o início do curso médico demonstrou pendores pela Neuro-psiquiatria. Assim é que, estudante ainda, já trabalhava no Hospício Nacional de Alienados, sob a direção de Teixeira Brandão e de seu assistente Henrique Roxo. Além da Psiquiatria, e talvez mais do que  ela, a Neurologia era objeto de seu interesse. Sua tese de doutoramento trouxe valiosa contribuição ao estudo clínico dos reflexos cutâneos. Passou a residir em Belo Horizonte a partir de 1913. Convidado para integrar o corpo docente da Faculdade de Medicina, assumiu, em 18 de janeiro de 1914, a cadeira de Clínica Neurológica e Psiquiátrica, vindo a ser mestre consagrado por seus contemporâneos. Designado por Arthur Bernardes, presidente do Estado, orientou a partir de 1920, as obras para a construção do manicômio de Belo Horizonte. O hospital foi inaugurado em 7 de setembro de 1922, em comemoração ao primeiro centenário da Independência do Brasil, com o nome de Instituto de Neuro-Psiquiatria de Belo Horizonte. O objetivo era tratar os casos neurológicos e psiquiátricos, pois naquela época as duas especialidades ainda não se haviam separado, sendo exercidas pelos neuropsiquiatras. Foi projetado com instalações consideradas excelentes na época. Álvaro de Barros seria o primeiro diretor, mas a morte o levou poucos dias antes de assumir (30 de agosto de 1922). A denominação foi mudada, em 19 de agosto de 1924, para Instituto Raul Soares, em homenagem ao Presidente do Estado falecido naquele ano.

Álvaro de Barros foi um autêntico intelectual, cuja vida tão curta se consumiu entre os livros. Viveu sempre pobre, não só porque não fazia empenho em acumular dinheiro, como porque grande parte do que ganhava era destinado à aquisição de livros e a maior parte do seu tempo era consagrada ao estudo. Possuía talvez a mais vasta e valiosa biblioteca que, em seu tempo, existia em Belo Horizonte. Logo após sua morte, o governo promoveu a aquisição de sua biblioteca, que passou a constituir o núcleo da biblioteca do Instituto Raul Soares.

 

Hermelino Lopes Rodrigues

            Foi um vulto ímpar da Psiquiatria nacional, sendo em sua época uma das mais profundas culturas médica e geral no Brasil. Discípulo de Juliano Moreira, foi médico do tradicional Hospital de Alienados da Praia Vermelha. Em 1925 fez o concurso para Livre-Docente da Faculdade de Medicina do Rio. Em outubro de 1926 prestou  concurso para  Professor Catedrático de Psiquiatria, na Faculdade de Medicina de Minas Gerais. A cadeira vagara-se, por morte do seu primeiro professor, Álvaro de Barros. Empossado, não assumiu a Cadeira imediatamente após o concurso. É que seu mestre Juliano Moreita não se conformava com sua ausência do Hospital da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, para onde mais uma vez o convocou e onde ele permaneceu  ainda por mais três anos. Ao assumir o Governo do Estado de Minas Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada convidou-o para dirigir o Instituto Raul Soares. Nesta época, embora haja registro das boas condições materiais do hospital, muitos doentes permaneciam encarcerados, funcionando a maioria dos quartos como prisões, tomando o Instituto o aspecto de um depósito de feras enjauladas (Lopes Rodrigues, “O Louco” - Rio de Janeiro, 1959). Os loucos, com os pés e as mãos atadas, quando não envolvidos em aparelhos de força, eram castigados por um calabrote de couro, com uma argola de ferro na ponta, vibrado por guardas habituados a tratá-los por meio de todo aquele instrumental mecânico de repressões e sevícias. Lopes Rodrigues, logo após sua posse como Diretor, libertou os loucos dos cubículos e retirou dos seus pulsos, dos seus braços e de seus pés, a muito deles com as próprias mãos, os aparelhos de suplício.  Os protestos contra o novo diretor, que era qualificado como louco por libertar os doentes mentais, fez com que o mesmo fosse chamado até o Palácio da Liberdade, quando travou-se diálogo histórico entre o Presidente do Estado e o jovem psiquiatra.

            Lopes Rodrigues reproduziu no Brasil, em 1929, o feito de Pinel na França, em 1793, no hospital de Bicêtre, abolindo com ousadia os meios de contenção dos doentes mentais. Foram retirados os aparelhos de contenção dos pacientes e restituída a liberdade aos encarcerados e amarrados. Este episódio memorável e a avaliação de sua importância no contexto da psiquiatria brasileira foi registrado em monografia escrita por seus discípulos e editada  por Francisco de Sá Pires, seu discípulo e professor da Clínica Psiquiátrica da  Faculdade de Minas Gerais (Lopes Rodrigues, “O  Louco”, 1959). Nesta monografia se confirma a semelhança entre o diálogo de Pinel, na Comuna de Paris, com Couthon (que participava da direção da Revolução Francesa) em 1793, e o diálogo de Lopes Rodrigues no Palácio da Liberdade, em 1929, com Antônio Carlos de Andrada (Presidente do Estado de Minas Gerais). Neste diálogo, em que explica sua  atitude de libertar os loucos, ele declarou " A razão, ali, é que põe a loucura em estado permanente de ameaça e não a loucura à razão. Os ameaçados são os inconscientes e indefesos. Eu estou apenas invertendo os lugares. Quem trata de doentes da mente, tem que passar de ameaçador a ameaçado. O contrário disso é a subversão da dignidade humana . . . E os loucos perigosos? Como tem a coragem de soltá-los? - Minha coragem aí, Presidente, não é soltar os loucos; está sendo a de enfrentar os sãos. Tenho a exata consciência do calvário de espinhos e do ciclone de lama que se agitam contra mim. A geração em que vivo não me interessa. . . Loucos perigosos são produto da ignorância médica. O que existe não são loucos perigosos, são lúcidos perigosos ». Foi mantido no cargo. Embora em momentos históricos muito diferentes, a atitude de Pinel tirando as amarras dos punhos dos loucos de Bicêtre, foi repetida por Lopes Rodrigues ao libertar os doentes mentais no Instituto Raul Soares. Aquele ficou famoso, enquanto Lopes Rodrigues passou a ser conhecido como “ o Pinel  brasileiro” (Lopes Rodrigues, o Pinel Brasileiro -  Rio de Janeiro, 1959) .

            Abolido o instrumental mecânico de contenção, iniciou-se uma fase  científica de tratamento e assistência. Lopes Rodrigues introduziu no Instituto Raul Soares os métodos clássicos de tratamento psiquiátrico: clinoterapia, ludoterapia, meloterapia, ergoterapia, balneoterapia e psicoterapia, como demonstra em seu livro Da assistência hetero-familial aos insanos mentaes. Todos esses empreendimentos e inovações científicas levaram o presidente Antônio Carlos de Andrade a documentar, em sua mensagem presidencial do ano de 1930 : «  . . . os melhoramentos de ordem científica e material introduzidos no Instituto Raul Soares tendem a erguê-lo ao nível dos institutos congêneres dos países de vanguarda. » (Mensagem Presidencial -1930. Estado de Minas Gerais)

            Lopes Rodrigues foi o introdutor no Brasil da Escola suiço-alemã de psiquiatria, sendo autor do primeiro trabalho brasileiro sobre esquizofrenia. A história da psiquiatria científica no Brasil, é assinalada por três grandes marcos ou épocas : escola francesa, com Teixeira Brandão; escola alemã, introduzida por Juliano Moreira (escola kraepeliniana) ; escola suíço-alemã, de Zurich, introduzida por Lopes Rodrigues. O conceito de esquizofrenia (escola de Bleuler) é pela primeira vez expresso no Brasil por meio da tese de Lopes Rodrigues para concurso de professor catedrático de psiquiatria em Minas Gerais, em 1926, pois até então dominava o conceito da escola francesa de Morel e da escola alemã de Kraepelin.

            Como diretor do Instituto Raul Soares e, ao mesmo tempo, catedrático de Psiquiatria da Faculdade de Medicina, desenvolveu a psiquiatria clínica em nosso meio, integrando o Hospital e a Escola  num projeto didático-assistencial. Como professor, foi o fundador do ensino efetivo de psiquiatria no Estado de Minas Gerais.

            Foi  professor, poeta, orador, administrador, biógrafo e artista, um dos expoentes máximos da psiquiatria no Brasil. Escreveu ainda o interessante livro  Anchieta e a Medicina. Foi diretor científico da Revista Médica de Minas, cuja publicação era dirigida, editada e quase toda redigida por Lopes Rodrigues. Em 1941 tornou-se membro da Academia Nacional de Medicina. Aposentou-se da Faculdade de Medicina em 1964 e faleceu em  1971.

 

Galba Moss  Velloso

            Nasceu em Cataguazes, Minas Gerais. Formou-se no Rio de Janeiro, em 1915, tendo sido interno da Assistência Pública do Rio de Janeiro e da Clínica Neurológica. Logo depois de formado clinicou em Itaguara, Cláudio e Pará de Minas. Foi contratado professor de psiquiatria da Faculdade de Medicina de Belo Horizonte em 1927. Fez parte do corpo clínico do Instituto Raul Soares, assumindo sua direção em 1934. Sob sua liderança, o Instituto Raul Soares e com ele toda a psiquiatria mineira atingiram grande prestígio nacional. Sob a liderança de Galba Velloso, é fundada, em 20 de junho de 1936, a Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal de Belo Horizonte. Desta sociedade faziam parte vários professores das cadeiras de Neurologia e Psiquiatria. Em setembro de 1938, funda os “Arquivos de Neurologia e Psiquiatria”, órgão da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal de Belo Horizonte.

Galba Velloso publicou vários trabalhos e defendeu tese na Faculdade de Medicina para docente da cadeira de Psiquiatria, sobre Malarioterapia na doença de Bayle, escrita logo após a descoberta magistral de von Jauregg. Defendeu tese de doutoramento intitulada Em torno do sinal de Babinski. Em 1945, em conseqüência de seus envolvimentos políticos e por haver assinado o “Manifesto dos Mineiros”, foi demitido do cargo de  diretor do Instituto Raul Soares. Faleceu em 10 de março de 1952. É o  patrono da cadeira número 23 da Academia Mineira de Medicina.

 

Sílvio Ferreira da Cunha

            Nascido em Teófilo Otoni, em 1893, foi empossado no cargo de livre-docente na Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina, sendo o último representante do grupo de psiquiatras mineiros formados  no Rio e que vieram estabelecer-se em Belo Horizonte. Sucedeu Galba Velloso, em 1945, na direção do Instituto Raul Soares, dirigindo-o por mais de dez anos. Substituiu Lopes Rodrigues na Cadeira de Psiquiatria após a aposentadoria deste. Faleceu em 1972.

            Foi professor de lógica e psicologia no Colégio Universitário. Grande humanista e de sólida formação intelectual, sendo respeitado por colegas e alunos. Sua tese de doutoramento foi Epilepsia e puberdade, tendo escrito diversos trabalhos, como Idéias modernas sobre a histeria e Conceito clínico das parafrenias.

 

Caio Líbano de Noronha Soares

            Nascido a 7 de julho de 1904, em Belo Horizonte. Diplomado em 1926 pela Faculdade de Medicina de Belo Horizonte. Carlos Pinheiro Chagas (1883-1932), professor da Faculdade de Medicina, o escolheu para supervisionar a construção do Hospital Psiquiátrico de Oliveira, do qual foi o primeiro diretor, em 1930. Foi diretor do Instituto Raul Soares de 1931 a 1934, tendo trabalhado neste hospital até 1961.

            Foi Assistente da Clínica Neurológica de 1928 a 1931. Em 1932,  com o afastamento de Washington Pires, o qual  assumira o cargo de Ministro da Educação e Saúde, Caio Líbano Soares, então assistente chefe de clínica da Cadeira, assumiu a regência da Clínica Neurológica. Foi Presidente da Associação Médica de Minas Gerais no biênio 1953/54 e membro da Academia Mineira de Medicina.

            Homem dotado de invulgar inteligência e grande capacidade de trabalho, exerceu diferentes atividades médicas. Foi professor de Neurologia da Faculdade de Medicina, catedrático de Física Aplicada à Farmácia da antiga Faculdade de Odontologia e Farmácia da Universidade de Minas Gerais. Foi uma das maiores expressões da Neuropsiquiatria de Minas Gerais, tendo publicado vários trabalhos originais. Iniciador da moderna neurologia em Minas Gerais, talvez tenha sido o maior conhecedor da Neurologia entre os neuropsiquiatras. Faleceu em 26 de março de 1991.

 

Francisco de Sá Pires

            Em junho de 1936 foi empossado, após concurso, como docente-livre na Clínica Psiquiátrica, com a tese Ensaios sobre o tratamento da paralisia geral progressiva. Aparentemente ele veio depois a se radicar no Rio de Janeiro, após um período de trabalho na Faculdade de Medicina de Minas Gerais, em cujos arquivos não foi possível encontrar maiores informações sobre sua história. Parece que atuou na Faculdade por mais de uma década, pois seu nome é citado como membro do corpo docente em ata de dezembro de 1949. Segundo Moretzsohn ( ),  ele teria conseguido permutar seu cargo com o colega Austregésilo Ribeiro de Mendonça, que se transferira do Rio de Janeiro Minas Gerais.

 

Iago Victoriano Pimentel

            Nascido em São João d'el Rei, em 1890, formou-se em Medicina no Rio de Janeiro. Foi professor de psicologia no Instituto de Educação e na Faculdade de Ciências Econômicas em Belo Horizonte. Exerceu o cargo de psiquiatra no Instituto Raul Soares e de professor da Faculdade de Medicina em 1960. Deixou publicado um livro que se tornou famoso na década de 30, obra de referência dos iniciantes do estudo de psiquiatria, intitulado Noções de psicologia aplicada à educação. Segundo Moretzsohn ( ), ele era um crítico refinado, estudioso dos clássicos da psiquiatria, de profunda erudição e cultura humanística. Faleceu em 1962

 

Austregésilo Ribeiro de Mendonça

            Nasceu em São José de Ubá, no estado do Rio de Janeiro, em 1908. Formou-se em medicina e especializou-se em psiquiatria no Rio de Janeiro. Foi assistente de Clínica Psiquiátrica na Faculdade Nacional de Medicina, onde defendeu tese de livre-docência em 1937 sobre A cura de Sakel e suas implicações clínicas. Em 1939 é empossado, após concurso, como docente-livre na Faculdade de Medicina de Minas Gerais, com a tese Novos aspectos na terapêutica da esquizofrenia, tendo coordenado diversos Cursos Equiparados de Clínica Psiquiátrica.

            Em 1940, quando Chefe do Departamento de Assistência Neuropsiquiátrica da Secretaria de Saúde, fundou o Instituto Psico-Pedagógico, com objetivo de abrigar as crianças e adolescentes, até então internados com os adultos no Instituto Raul Soares. Como Secretário de Estado da Saúde, em 1958, iniciou a construção do Hospital Galba Velloso para aos pacientes do sexo feminino. Planejava construir outro hospital para  homens e destinar o Instituto Raul Soares como hospital-dia/oficina-terapêutica, que iria preparar os enfermos menos graves para o exercício de atividades laborativas simples, passíveis de remuneração.

            Foi fundador e diretor da Casa de Saúde Santa Maria, inaugurada em 1947, além de ter sido um dos fundadores da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, onde regeu a disciplina de psiquiatria. Licenciou-se algumas vezes da Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina, para exercer os cargos de Secretário de Saúde e dois mandatos como Deputado Federal, vindo a falecer em Belo Horizonte em 1999.

 

Tasso Ramos de Carvalho

            Nascido em 1918, em Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, formou-se na Universidade de Minas Gerais em 1951.  Recebeu o título de livre-docência em 1960 com a tese Tentativa de suicídio. Lecionou Medicina Legal  na Faculdade de Direito, tendo sido presidente da Sociedade de Medicina Legal e Criminologia do Brasil, bem como da Sociedade Brasileira de Medicina Legal.

            Estava sempre a trabalhar, ler e escrever, tendo realizado viagens de estudos aos Estados Unidos e ao Canadá. Proferiu palestras e conferências sobre a psiquiatria forense, produzindo trabalhos como Contribuições ao estudo antropométrico e estatístico de oligofrênicos, Estresse e algo mais, O tratamento do criminoso, além de coordenador do livro Psicopatias ou transtornos de personalidade em psiquiatria forense.

            Foi fundador e diretor da Revista de medicina legal, psiquiatria e ciências afins, como também da Clínica Senhora de Fátima, em uma fazenda, onde podia manter os pacientes em ambiente aberto. Tornou-se Presidente da Academia Municipalista de Letras, tendo falecido no decorrer do segundo mandato, em Belo Horizonte.

 

Clóvis de Faria Alvim

            Nasceu em Itabira – MG, em 1920. Formou-se na Faculdade de Medicina de Minas Gerais em 1945, tendo se dedicado durante trinta anos ao trabalho intelectual na área teórica da psiquiatria, com incursões na história, no folclore, na literatura, na antropologia e na crítica literária. Possuidor de cultura invejável e profundo conhecedor de psiquiatria, foi autor de várias publicações científicas. Sua tese de Livre Docência de Psiquiatria intitulou-se  Introdução ao Estudo da Deficiência Mental, tendo escrito um livro sobre o mesmo assunto. Foi também  o responsável por um  dicionário de termos psiquiátricos e psicológicos.

            Colaborador da famosa educadora Helena Antipoff, professor universitário, fundador de associações psiquiátricas e psicológicas, pesquisador, Clovis Alvim deixou obra de imenso valor como Alguns aspectos da vida sexual dos índios brasileiros, Um caso de esclerose tuberosa, Um precursor mineiro da psiquiatria brasileira, O jovem Freud, O pensamento evolucionista em neuropsiquiatria e Assistência ao doente mental. Administrou cursos de psiquiatria infantil, tendo atuado no Serviço de Antropologia Criminal na Penitenciária Agrícola de Neves, no Instituto Pestalozzi, no Hospital de Psiquiatria Infantil e na Faculdade de Ciências Médicas. Faleceu em 1979

Paulo Saraiva

            Nasceu em Belo Horizonte em 1918, diplomando-se na Faculdade de Medicina em 1944, onde defendeu tese de livre-docência  sobre O teste Rorcharch em psiquiatria infantil. Como seu grande amigo Clóvis Alvim, dedicou boa parte da vida ao estudo do sofrimento mental do ser humano. De cultura invejável, deixou obras como Problemas emocionais das crianças, O conceito de esquizofrenia, Estudo médico-psicológico de casos de deterioração mental, Medicina psicossomática, O teste Rorschach e a personalidade epiléptica.

            Publicou vários artigos em revistas e jornais leigos como Psicologia da forma e método dialético, A Psicanálise, O complexo de Édipo, O Psicotécnico e a segurança no trânsito, A psicossomática, A memória, A narcoanálise, As psicoterapias, A personalidade epiléptica. Trabalhou em diversas instituições psiquiátricas, tendo também se dedicado ao ensino de psiquiatria na Faculdade de Ciências Médicas.

 

 

SUMMARY 

It is made a brief report of the history of the psychiatry in the Faculdade de Medicina de Minas Gerais, from its foundation in 1911 to the year of 1961. The psychiatrists that belonged to the Department of Psychiatry and Neurology during that period, as well as its more important scientific works are related. 

 KEY-WORDS: History of the Psychiatry; History of the Psychiatry in Brazil; History of the Psychiatry in the Universidade Federal de Minas Gerais.

 

 

REFERÊNCIAS  BIBLIOGRÁFICAS

1.      Alexander FG, Selesnick ST. História da psiquiatria. São Paulo: Ibrasa; 1968.

2.      Moretzsohn JA. História da psiquiatria mineira. Belo Horizonte: Coopmed Editora; 1989.

3.      Salles P.  História da Medicina no Brasil. Editora G. Holman Ltda. , Belo Horizonte, 1971.

4.      Salles P. - Notas sobre a História da Medicina em Belo Horizonte. Edições Cuatiara Ltda., Belo Horizonte, 1997.

5.      Campos MM. Cinqüentenário da Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Belo Horizonte: UFMG; 1961.

6.      Rocha H. - Sexagésimo aniversário da Faculdade de Medicina da UFMG. Belo Horizonte, 1971.

7.      Pires F S. - Lopes  Rodrigues, “o louco”. Rio de Janeiro, 1959.

8.      Homenagem dos seus discipulos - Lopes Rodrigues, o Pinel Brasileiro. Rio de Janeiro, 1959.

9.       Magro JBFo. - A tradição da loucura : Minas Gerais - 1870 / 1964. Coopmed Editora / Editora UFMG. Belo Horizonte, 1992.

10.    Coelho RS. Clovis de Faria Alvim. Rev. do Centro de Estudos Galba Veloso, 5:36, 1979.

11.  Rodrigues HL. Oração de posse na Academia Nacional de Medicina, 1941

12.  Rodrigues HL. O Doente Mental no Brasil. Oração de posse como diretor do Serviço Nacional de Doenças Mentais. Rio de Janeiro, 1958.

13.  Rodrigues HL. Juliano Moreira. Rio de Janeiro, 1929.

14.  Rodrigues HL. Instituto Raul Soares. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1930.

15.  Rodrigues HL. Da etio-patogenia da demência precoce. Em tôrno do conceito das esquizofrenias. Rio, 1926, Tip. da S. A. Gazeta da Bolsa, 36 p.

16.  Velloso GM. Malarioterapia na moléstia de Bayle. Belo Horizonte, 1928, Tip. Brasil, 42 p.

17.  Cunha SF. Idéias modernas sôbre a histéria. Belo Horizonte, 1928, Imp. Oficial, 100 p.

18.  Alvim CF. Introdução ao estudo da deficiência mental. Belo Horizonte, 1958, Editora Itatiaia Ltda. 212 p


 Professor Dr. Lybio Martire Junior

Presidente da Sociedade Brasileira de História da Medicina

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Museu Histórico “Prof. Carlos da Silva Lacaz”

Faculdade de Medicina da USP

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